Ensino Superior em Moçambique, minha experiência no papel de “Dra. Sâmela Silva”

Me pego lembrando de Moçambique como quem lembra de um sonho bom. Agora tudo virou aprendizado e sinto uma saudade tranquila, daquelas que só as coisas boas vem em mente. Das experiências mais gratificantes que tive, lecionar foi talvez a principal. Sim, humildemente e com todo o respeito aos mestres, pude experimentar ser professora, aliás, “Doutora”, como eles se referem aos professores universitários. ;)

Diferente do Brasil, onde há universidades como há padarias, em Moçambique senti que o ensino superior nacional ainda é pouco explorado e valorizado. Conheci muitos moçambicanos que foram estudar no exterior, e os destinos mais comuns eram: Portugal, Brasil e África do Sul. Falta de incentivo, investimento, estrutura, entre outros, são itens que prejudicam a continuidade dos estudos por lá.

Formada em Comunicação Social – Jornalismo, me abri para uma nova experiência quando um convite inesperado surgiu: dar aulas para a turma do último semestre de Ciências da Comunicação do ISCTEM, o Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. A princípio me assustei, afinal sou apenas graduada mas entendi que lugares como Moçambique precisam de gente com vontade, não só com diversos diplomas, e encarei o desafio.

A cadeira (é assim que eles chamam “matéria” lá) era Estratégia Avançada em Branding, puro Marketing, mas meus 2 primeiros anos de comunicação me deram a base que os alunos precisavam. Tive que ler livros, pesquisar muito, ver referências e vídeos para levar à sala de aula mais que um simples discurso. Meus alunos moçambicanos fizeram meu cérebro desenferrujar! :D

Ah… os alunos! Olha, foi um pequeno desafio convencê-los de que liberdade era diferente de zona. Chegavam na hora que queriam, faziam as tarefas que queriam, até que a pequena aqui chegou dizendo: “A gente vai se divertir e aprender muito, mas do meu jeito”. Rsrsr… Comecei a ensinar muito mais do que estratégia de marcas, entendi que ali meu papel era prepara-los para a vida: comportamento, jeito de falar, escrever, pontualidade, etc. Eles precisavam de atenção em uns passos antes.

Alunos moçambicanos nas dependências da faculdade.

Concluí que isso é fruto de aulas babacas, professores que entram, abrem um livro, começam a ditar e ponto. Resolvi fazer diferente. Graças a Deus, na faculdade na qual dei aulas, havia uma certa infraestrutura, tinha um projetor na sala, por exemplo. Eu inseria vídeos, músicas, aulas em Power Point com ilustrações, lembretes, dicas. Levei revistas e jornais, nacionais e estrangeiros, para análise e por aí foi. Até na disposição das cadeiras eu mexi quando fizemos um debate, coisas simples, banais para quem teve a oportunidade de conhecer professores bacanas, mas pra eles eu senti que fez diferença.

A dificuldade de aprendizado era nítida, a maioria morava muito longe, eles eram de origem simples, trabalhavam e estavam ali cansados. Considere o agravante de que não há transporte público decente, que os salários são baixíssimos e que o ensino fundamental e médio são precários, mas isso renderá outro post. Entre uma dificuldade e outra, aos poucos fomos nos alinhando. Fui sentindo os alunos mais interessados, presentes e com vontade de interagir. Fiz questão de mandar todas as aulas por e-mail e assim criamos outro espaço de estudo, fora das dependências da faculdade. Muitos não tinham computador e internet em casa, mas havia um laboratório de informática à disposição dos alunos e os cafés (como eles chamam as lan houses) não são tão caros por lá.

ISCTEM – Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique, local onde dei aulas.

Eu dei sorte. Toda essa infraestrutura não é regra, minha amiga Renata Moraes que o diga! Essa jornalista baiana também passou uns tempos em Maputo e lecionou na Faculdade de Jornalismo de lá… era lousa de giz e carteiras em péssimo estado. Mas, como eu disse, gente como ela fazia a diferença porque tinha vontade. Ela levava os alunos para atividades fora, incentivava debates e aplicava provas de verdade, serviu de inspiração pra mim! ;)

Apesar das dificuldades, eles estavam lá, não é fácil se formar com um quadro tão desfavorável, então, deixo aqui resgistrado meus parabéns como professora coruja! :) O mais gratificante foi aplicar o exame de fim de semestre que eu mesma elaborei. Eles absorveram muito do que passei e mostraram isso no papel! Um deslize ali, outro aqui, mas ok, faz parte! Até hoje tenho contato com eles, de vez em quando mando um e-mail perguntando como estão, se já se inseriram no mercado de trabalho e tal, as respostas vem sempre cheias de carinho tipo essa que recebi depois de divulgar as notas dos testes:

“Boa noite !

Hummm que bom saber que há só boas notas na turma!

Em nome da turma agradeço pelas aulas foram optimas, muito produtivas e superaram as nossas expectactivas! 

É uma pena que tenhamos terminada já as aulas,

Gostamos muito de ter ficado esse tempo ao nosso lado!

Passe bem e continue sendo essa pessoa e professora atenciosa; carinhosa; e acima de tudo com conhecimento e vontade de transmití-lo ! 

Bjx”

Da aluna Aissa Madaugy.

Kanimambo, Queridos alunos! Vocês nem sabem, mas quem aprendeu mesmo fui eu! Vocês são professores de vida! ;)

 Sâmela Silva, direto de São Paulo, Brasil, mas morta de saudade de Maputo, Moçambique.

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10 responses to this post.

  1. Posted by Stela on 12/08/2012 at 10:05 PM

    Adorei esse post, essa é uma das experiências que fiquei com muita vontade de ter em Moçambique, quem sabe quando eu estiver de fato formada… Seria muito legal. Parabéns pela sua coragem, eu admiro muito essa profissão, ainda mais por quem abraça ela com essa vontade e essa garra, a vida nos reserva ótimas surpresas! :)

    Resposta

  2. Posted by Nat Fox on 15/10/2012 at 12:38 PM

    :) isso q eh um desafio e tanto!!
    Parabens por ter encarado de frente!

    Resposta

  3. Posted by Marcela on 26/11/2012 at 8:56 PM

    Vc tem como informar sobre como dar aulas em Moçambique? Sou formada em química e com mestrado em educação, tenho muita vontade e disposição em ir para lá. Desde já agradeço muito!

    Resposta

  4. Posted by Inês Barbosa on 14/02/2013 at 4:33 AM

    Oi samela! Estou vidrada no eu blog!
    Cheguei a moçambique ha 3 semanas e gostava de trocar ideias com voce sobre dar aulas e onde devo ir… Ajudas-me?
    Obrigada!
    Meu email é inessbarbosa@gmail.com

    Estou a adorar seu blog e proximo passo é acampar no kruger :)

    Resposta

  5. Posted by Angela Nantes on 17/07/2013 at 12:39 PM

    Olá Samela! Amei o teu blogue… estou a caminho de Moçambique, com muitas dúvidas/medo. Pode contactar-me por e-mail? Obrigada!

    Resposta

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